Locadoras de Vídeo — Uma Viagem ao Passado

Sexta-feira à tarde. A semana tinha acabado, o fim de semana estava chegando e havia uma missão clara: ir à locadora escolher os filmes do final de semana. Não era uma tarefa simples — era um ritual.
Você entrava, sentia aquele cheiro específico de plástico e ar-condicionado, e passava pelo corredor de lançamentos devagar, olhando capa por capa. Lia as sinopses do verso com a seriedade de quem estava tomando uma decisão importante — porque estava. Aqueles filmes iam definir sua sexta e seu sábado à noite. Não dava para errar.
Às vezes você pedia opinião pro atendente. Às vezes ele conhecia seu gosto e já separava alguma coisa antes mesmo de você perguntar. E quando você chegava em casa com a sacola de fitas, havia uma satisfação específica que nenhum streaming conseguiu replicar: a sensação de ter escolhido, pessoalmente, o que você ia assistir. 📼
O Começo de Tudo — O VHS Chega ao Brasil
Antes de existirem locadoras, existia um problema: se você quisesse assistir a um filme em casa, dependia da grade da televisão. Você assistia o que a emissora decidia passar, na hora que ela decidia passar. Não havia pausa, não havia repetição, não havia escolha.
O VHS — Video Home System — mudou isso de forma revolucionária. Desenvolvido pela JVC no Japão em 1976 e lançado nos Estados Unidos em 1977, o formato chegou ao Brasil no início dos anos 80 e rapidamente criou um mercado inteiramente novo: o aluguel de filmes em fita cassete.
Antes do VHS, a Sony havia tentado estabelecer seu próprio formato doméstico, o Betamax — tecnicamente superior em alguns aspectos, mas que perdeu a guerra dos formatos para o VHS principalmente pela maior capacidade de gravação e pela adoção em massa por fabricantes e locadoras. O Betamax acabou sendo descontinuado, e o VHS dominou os anos 80 e 90 de forma absoluta.
A primeira locadora de vídeo de Brasília foi inaugurada em 1981 por Arivaldo Couto Caldas, a Video Service, no Gilberto Salomão. Naquela época, as locadoras funcionavam como clubes — o cliente pagava um valor fixo e retirava até quatro filmes por semana. Era um modelo de assinatura avant la lettre, décadas antes de qualquer plataforma de streaming inventar o mesmo conceito.
A Explosão dos Anos 80 e 90
A segunda metade dos anos 80 e toda a década de 90 foram a era de ouro das locadoras no Brasil. Em 1996 — o auge do mercado — o país tinha 17.938 videolocadoras registradas. Só no Distrito Federal, chegou a existir mais de 600 estabelecimentos do gênero.
Essa proliferação refletia uma realidade simples: a locadora era o único lugar onde você tinha controle sobre o que ia assistir e quando ia assistir. Era liberdade cinematográfica numa época em que liberdade cinematográfica não existia de outra forma.
E as locadoras entenderam rapidamente que eram mais do que pontos de aluguel — eram espaços de curadoria e de comunidade. Os atendentes conheciam os clientes pelo nome, sabiam seus gostos e faziam recomendações personalizadas com uma eficiência que os algoritmos modernos ainda tentam replicar. “Você gostou daquele? Então esse aqui você vai adorar” — uma frase que qualquer frequentador assíduo de locadora dos anos 90 já ouviu várias vezes.
O Ritual da Escolha — Uma Arte Perdida
Uma das coisas que o streaming matou — e que muitas pessoas não perceberam que iriam sentir falta — foi o ritual de escolher o filme.
Na locadora, a escolha era um processo físico e deliberado. Você pegava a caixa na mão, virava para ler o verso, olhava as fotos, verificava a classificação etária, lia os créditos. Havia uma presença material no processo que criava comprometimento — você tinha pensado naquele filme, considerado, decidido que valia a pena.
Isso criava também uma curadoria involuntária. Você lia sinopses de filmes que nunca teria descoberto de outra forma, porque estavam na prateleira ao lado do que você foi buscar. Muitas das maiores descobertas cinematográficas de uma geração inteira aconteceram assim — pela curiosidade despertada por uma capa interessante num corredor de locadora.
As capas em si eram uma arte. Nos anos 80, especialmente, havia uma tradição de capas de filmes de terror, ação e ficção científica com artes pintadas à mão que eram genuinamente impressionantes como peças gráficas. Colecionadores hoje pagam valores significativos por caixas de VHS originais com essas artes — especialmente de filmes cult que tiveram tiragens pequenas.
Rebobine, Por Favor — A Regra de Ouro
“Por favor, rebobine antes de devolver.”
Esse aviso — que aparecia nas fitas, nos balcões das locadoras e às vezes em cartazes na parede — era a regra mais importante do universo das videolocadoras. Devolver uma fita sem rebobinar era considerado uma falta de respeito grave — com o atendente, com o próximo cliente e com a fita em si.
Algumas locadoras cobravam multa por fita não rebobinada. Existia até um aparelho específico vendido no mercado brasileiro — o rebobinador externo — que reembobinava as fitas mais rápido do que o videocassete, poupando o mecanismo do aparelho e acelerando o processo. Era um produto que existia exclusivamente por causa de um comportamento cultural específico de uma época.
Quem cresceu nos anos 90 e ouviu essa frase dezenas de vezes tem uma resposta emocional imediata quando a escuta hoje. É proust no sentido mais literal — uma expressão que transporta instantaneamente para um tempo e um lugar específicos.
Os Games Nas Locadoras — O Bônus Extra
Para os gamers que cresceram nos anos 90, as locadoras tinham um atrativo extra além dos filmes: jogos de videogame para alugar.
Alugar um jogo de Super Nintendo ou de Mega Drive por um fim de semana por uma fração do preço de compra era a oportunidade de experimentar títulos que você nunca poderia ter — e de decidir se valia a pena economizar para comprar o original. Para as famílias com orçamento mais limitado, o aluguel de games era a única forma de ter acesso a uma biblioteca mais ampla do que as poucas caixas que cabiam no orçamento.
As locadoras de games — algumas especializadas exclusivamente nisso, outras como seção dentro das videolocadoras convencionais — foram um ecossistema próprio que moldou a relação de uma geração inteira com os videogames. E para o universo geek nostálgico, são lembradas com o mesmo carinho que as locadoras de filmes.
A Decadência — Quando o Mundo Mudou
O declínio das videolocadoras foi gradual mas inevitável, causado por uma sequência de transformações tecnológicas que se sobrepunham.
O DVD chegou ao Brasil no final dos anos 90 e começou a substituir as fitas VHS nas prateleiras das locadoras. A imagem mais nítida, o som melhor e a durabilidade maior do disco eram vantagens claras — e as locadoras precisaram investir na migração do acervo, um processo caro e trabalhoso.
Mas foi a pirataria que deu o primeiro golpe sério. Com a proliferação dos DVDs piratas vendidos em feiras e camelôs por alguns reais, uma parte significativa do público deixou de alugar para comprar — mesmo sabendo que estava adquirindo uma cópia ilegal. As locadoras, que operavam com margens estreitas, sentiram imediatamente.
Depois veio a internet de banda larga. O download de filmes — legal ou não — transformou qualquer computador conectado numa locadora com acervo ilimitado. A conveniência era incomparável: sem sair de casa, sem horário de funcionamento, sem taxa de atraso.
E finalmente veio o streaming. O Netflix chegou ao Brasil em 2011 e o modelo de assinatura mensal com catálogo ilimitado, disponível a qualquer hora em qualquer tela, foi o ponto final. Em 2006, ainda havia locadoras em 82% dos municípios brasileiros. Em 2014, esse número havia caído para 53% — e continuou despencando.
As Que Resistiram — Uma Última Homenagem
Mesmo depois do tsunami do streaming, algumas locadoras sobreviveram — e o fizeram com uma determinação que mistura amor ao cinema com teimosia admirável.
Em Belo Horizonte, a Star Vídeo e a ArtVídeo mantêm seus acervos de DVDs e filmes raros que não existem em nenhuma plataforma digital. São referências para colecionadores e cinéfilos que buscam títulos que o Netflix jamais vai ter — documentários obscuros, filmes de cinematografias menores, raridades que só existem em formato físico.
Em São Paulo, algumas locadoras sobreviveram transformando-se em clubes de cinema — com sessões temáticas, debates e uma comunidade que se reúne fisicamente para compartilhar a experiência cinematográfica de uma forma que a tela individual do streaming não oferece.
E em cidades menores, resistentes individuais mantêm pequenos acervos abertos alguns dias por semana — parte por amor, parte por teimosia, parte porque ainda há uma clientela fiel que prefere a experiência física à digital.
O Legado que Ficou
O streaming deu mais comodidade. Mais opções. Mais disponibilidade. Mas tirou algo que muitas pessoas só perceberam que existia depois que desapareceu: a curadoria humana, o ritual da escolha, a conversa com o atendente que conhecia seu gosto e a satisfação específica de trazer para casa uma sacola de filmes escolhidos com cuidado numa tarde de sexta.
A Netflix tem um algoritmo sofisticado que analisa seus hábitos de consumo e sugere o que você deve assistir a seguir. A locadora tinha o seu Zé, que trabalhava lá há cinco anos e sabia que você adorava thriller psicológico mas detestava filmes com final aberto. E o Zé sempre acertava mais do que o algoritmo.
Talvez seja por isso que a nostalgia pelas locadoras seja tão específica e tão genuína. Não é saudade da tecnologia — do VHS, das fitas que travavam, do processo de rebobinar. É saudade de um tipo de relação com o entretenimento que era mais lenta, mais deliberada e mais humana.
E quando você ouve alguém dizer “rebobine, por favor”, você sabe exatamente o que está sentindo. 📼
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