Contra e Metal Slug: a História dos Jogos Mais Difíceis dos Fliperamas
Você tem mais uma ficha? Quem viveu os fliperamas dos anos 80 e 90 com certeza já ouviu (ou gritou) essa frase pelo menos uma vez. Afinal, poucos gêneros conseguem resumir tão bem a essência arcade quanto o run and gun, e nenhum representa essa fórmula melhor do que Contra e Metal Slug. Por isso, a gente decidiu mergulhar de cabeça na trajetória dessas duas franquias lendárias, que moldaram gerações de jogadores e ainda hoje fazem qualquer nerd suar a camisa.
Antes de continuarmos, vale lembrar que estamos falando de dois fenômenos distintos. Enquanto a Konami apostou em uma fórmula mais crua e implacável com Contra, a SNK, através do extinto estúdio Nazca Corporation, trouxe humor, exagero e uma pixel art deslumbrante com Metal Slug. Do mesmo modo, ambos compartilham algo em comum: a dificuldade absurda que fazia o jogador gastar fichas como água.
Contra: o pioneiro implacável da Konami
A Konami lançou Contra para arcades em 20 de fevereiro de 1987, e o impacto foi imediato. O jogo colocava o jogador no comando de Bill Rizer e Lance Bean, dois comandos enviados para invadir a base do exército alienígena Red Falcon. Em contrapartida ao enredo futurista, o título escondia referências políticas bem reais: o nome “Contra” remete diretamente aos rebeldes da revolução na Nicarágua, e a trilha sonora ainda traz uma faixa chamada “Sandinista” como homenagem direta a esse contexto histórico.
Acima de tudo, Contra revolucionou o gênero ao permitir que dois jogadores avançassem simultaneamente pela tela, sem precisar alternar turnos como acontecia na maioria dos jogos de ação da época. Além disso, a Konami optou por uma tela em formato vertical nos arcades, uma escolha pouco convencional que se justificava pelas fases pseudo-3D, nas quais os personagens corriam de costas para a câmera por corredores cheios de inimigos. Essa mecânica, somada aos power-ups icônicos como o Spread Gun e o Laser, transformou cada partida em uma corrida contra o tempo e contra hordas implacáveis de robôs e criaturas alienígenas.
A dificuldade de Contra entrou para a história, e não é exagero dizer isso. Inegavelmente, o jogo se tornou tão difícil que muitos jogadores experientes não conseguiam nem terminar a primeira fase. Consequentemente, a versão para NES, lançada em 1988, imortalizou o famoso Konami Code (cima, cima, baixo, baixo, esquerda, direita, esquerda, direita, B, A), que concedia trinta vidas extras logo na tela de título. Esse código, aliás, nasceu de um esquecimento dos programadores em Gradius e acabou se tornando parte essencial da cultura gamer mundial, sendo replicado em incontáveis outros jogos ao longo das décadas.
Vale destacar ainda a curiosa rivalidade visual entre as versões do jogo. A arte da capa europeia, lançada sob o nome Gryzor para computadores como ZX Spectrum e Commodore 64, foi ilustrada por Bob Wakelin, que confessou ter se inspirado nas poses de Arnold Schwarzenegger no filme Predador. Por outro lado, a versão europeia para NES recebeu o nome Probotector, e os protagonistas humanos foram substituídos por robôs, uma decisão da Nintendo para evitar polêmicas sobre violência em alguns territórios.
O legado eterno de Contra
Com o intuito de expandir o universo, a Konami lançou diversas sequências ao longo dos anos, incluindo Super C, Contra III: The Alien Wars e Contra: Hard Corps. Apesar das tentativas de modernização em consoles mais recentes, nenhum título conseguiu superar o carisma bruto do original. Por isso, Contra continua sendo sinônimo de desafio extremo, cooperação caótica e aquele frio na barriga só de ouvir a trilha sonora tocar.
Metal Slug: o caos cômico que conquistou o Neo Geo
Enquanto Contra apostava em um tom sombrio e futurista, a SNK trouxe uma proposta completamente diferente em 18 de abril de 1996, com o lançamento de Metal Slug: Super Vehicle-001 para o arcade Neo Geo MVS. O jogo nasceu dentro da Nazca Corporation, um pequeno estúdio formado por aproximadamente cem ex-funcionários da Irem, empresa responsável por clássicos como R-Type e In the Hunt. Não por acaso, esse DNA técnico se reflete diretamente na qualidade visual estonteante do jogo.
Curiosamente, a concepção original de Metal Slug era bem mais lenta e sombria, com o jogador controlando diretamente o tanque SV-001 (o “Metal Slug” que dá nome à série) em missões curtas e atmosfera pesada. No entanto, após testes de localização decepcionantes, a equipe reformulou todo o projeto a pedido da SNK, que havia acabado de adquirir a Nazca. Assim, o ritmo se tornou mais acelerado, os soldados ganharam papel central, e o tom sombrio cedeu espaço para o humor escrachado que se tornaria marca registrada da franquia.
A ambientação de Metal Slug se passa em 2028, e acompanha os soldados Marco Rossi e Tarma Roving, membros da Peregrine Falcon Strike Force, em uma missão para deter o golpe militar liderado pelo General Donald Morden. Por outro lado, é impossível não notar a clara homenagem (e crítica satírica) a Contra na proposta geral do jogo, já que a própria equipe da Nazca admitiu se inspirar fortemente na fórmula da Konami. A diferença está no tom: enquanto Contra é tenso e implacável, Metal Slug equilibra ação frenética com piadas visuais, animações exageradas e um senso de humor quase de desenho animado, com clara influência do trabalho de Hayao Miyazaki.
A jogabilidade trazia uma receita simples e genial: apenas dois botões de ataque (tiro e bomba), liberdade para destruir cenários em busca de itens escondidos, e a possibilidade de resgatar prisioneiros de guerra que recompensavam o jogador com armas poderosas. Acima de tudo, os veículos roubavam a cena: tanques, helicópteros, camelos e até motos podiam ser pilotados, cada um trazendo uma forma diferente de arrasar com os inimigos do General Morden.
A dificuldade que separava os mestres dos amadores
Assim como Contra, Metal Slug também ficou famoso pela dificuldade implacável. Inimigos surgiam em ondas constantes, e um único erro de posicionamento podia significar a perda imediata de uma vida. Por isso, dominar os padrões de cada fase exigia memorização, reflexos rápidos e, é claro, muitas fichas gastas no fliperama. Em contrapartida, a cooperação entre dois jogadores tornava tudo ainda mais caótico (e divertido), já que a tela ficava lotada de explosões, tiros e civis fugindo desesperadamente.
O sucesso do primeiro jogo garantiu uma das franquias mais longevas dos arcades, com destaque para Metal Slug 2 e Metal Slug X, considerados por muitos fãs como o ápice da série, além de Metal Slug 3, que introduziu fases ramificadas e criaturas alienígenas ainda mais bizarras. Consequentemente, a estética pixelada e o humor absurdo de Metal Slug influenciaram diretamente jogos modernos como Cuphead, Broforce e Mercenary Kings.
Comparando os dois gigantes do run and gun
Com o intuito de entender melhor as diferenças entre as duas franquias, vale destacar alguns pontos centrais:
- 🎮 Tom narrativo: Contra aposta em ficção científica sombria e invasão alienígena; Metal Slug equilibra guerra e comédia escrachada.
- 💥 Ano de lançamento: Contra chegou em 1987, enquanto Metal Slug surgiu quase dez anos depois, em 1996.
- 🕹️ Plataforma de origem: Contra nasceu nos arcades e ganhou fama mundial no NES; Metal Slug é praticamente sinônimo do hardware Neo Geo.
- 🤝 Cooperação: Ambos permitem dois jogadores simultâneos, mas Metal Slug adiciona veículos como diferencial tático.
- 🔥 Dificuldade: Por isso mesmo, os dois títulos são constantemente citados entre os jogos mais difíceis já lançados nos fliperamas.
É importante lembrar que essa dificuldade extrema não era um defeito, mas sim parte da própria economia dos arcades da época. Afinal, quanto mais fichas o jogador gastasse tentando vencer, melhor para o estabelecimento. Consequentemente, tanto a Konami quanto a SNK projetaram seus jogos para serem desafiadores ao extremo, criando uma curva de aprendizado que recompensava memorização e paciência acima de tudo.
Para quem quer reviver essa adrenalina hoje em dia sem gastar uma fortuna em fichas, vale a pena considerar um fliperama de mesa retrô ou até mesmo um joystick arcade USB compatível com coletâneas como Contra Anniversary Collection e Metal Slug Anthology, ambas disponíveis para PC e consoles modernos. Com certeza, a experiência fica ainda mais completa com um controle que reproduz aquele clique satisfatório dos botões originais de fliperama.
Curiosidades nostálgicas que todo fã precisa conhecer
Algumas curiosidades ajudam a entender por que essas duas franquias permanecem tão amadas até hoje. Por exemplo, a versão japonesa de Contra para Famicom contava com efeitos climáticos e um mapa entre fases, recursos cortados da versão americana por limitações de hardware. Do mesmo modo, Metal Slug 2 trazia uma referência direta ao filme Independence Day em sua batalha final, mostrando como a cultura pop dos anos 90 permeava até os detalhes mais sutis dos jogos.
Além disso, a falência da SNK em 2001 quase encerrou a franquia Metal Slug para sempre. No entanto, o surgimento da Playmore (depois SNK Playmore) garantiu a continuidade da série, ainda que com equipes diferentes da Nazca original. Por isso, muitos fãs consideram os três primeiros jogos como a “era de ouro” verdadeira da franquia.
A gente não tem dúvida: tanto Contra quanto Metal Slug representam o auge do desafio arcade, cada um com sua própria personalidade. Contra é aquele amigo sério e implacável que não perdoa erro, enquanto Metal Slug é o parceiro engraçado que faz você rir mesmo morrendo pela milésima vez na mesma fase. Se você nunca jogou nenhum dos dois, comece por Metal Slug 2 ou Contra III: são as portas de entrada perfeitas para entender por que essas franquias continuam tão respeitadas décadas depois. E aí, qual dos dois te fez gastar mais fichas na infância?
Tags: Contra, Metal Slug, Konami, SNK, Neo Geo, NES, fliperama, run and gun, arcade, nostalgia, jogos retrô, Nazca Corporation
