Os Cavaleiros do Zodíaco: Como um Anime “Recusado” Conquistou o Brasil dos Anos 90

Tem uma certa magia em lembrar daquele horário em que tudo parava pra ver Seiya, Shiryu, Hyoga, Shun e Ikki defenderem a deusa Atena. Para quem foi criança nos anos 90 no Brasil, Os Cavaleiros do Zodíaco não foi só um desenho japonês qualquer. Foi o ponto de partida de uma geração inteira de fãs de anime, cultura pop e colecionismo.

E o mais curioso é que, se dependesse das emissoras “certas”, talvez você nunca tivesse visto esse desenho na TV brasileira.

A recusa que quase mudou a história

Antes de chegar à TV, Os Cavaleiros do Zodíaco (no Japão, Saint Seiya) foi oferecido a praticamente todas as emissoras brasileiras , e recusado por todas elas, incluindo a Rede Globo. A distribuidora de brinquedos Samtoy queria uma “vitrine” na TV para vender os bonecos da franquia e oferecia os episódios praticamente de bandeja.

Quem acabou aceitando foi a já enfraquecida Rede Manchete, da família Bloch, que recebeu os primeiros episódios quase como um brinde, sem muita fé no produto. O diretor responsável pela decisão, Eduardo Miranda, inicialmente também rejeitou a proposta depois de assistir a um trailer de poucos minutos recheado de cenas de sangue e violência , longe do que se esperava de uma atração “infantil”. Só depois de assistir a episódios completos, a pedido da própria distribuidora, ele percebeu que havia muito mais profundidade na trama do que aquele trailer sugeria, e finalmente deu o sinal verde.

A estreia que ninguém viu chegar

Em 1º de setembro de 1994, durante o programa infantil Dudalegria, Os Cavaleiros do Zodíaco estreou na TV brasileira sem qualquer grande divulgação. Uma reprise no mesmo dia, dentro do Clube da Criança, ajudou a espalhar a notícia entre a criançada.

O que era apenas um produto qualquer na grade rapidamente se tornou o assunto obrigatório nos pátios de escola por todo o Brasil. A Manchete, que vivia dias financeiramente difíceis, viu no desenho uma verdadeira tábua de salvação, alcançando a liderança de audiência nos horários em que era exibido. Apenas os primeiros 52 dos 114 episódios da saga original foram trazidos inicialmente — e foram reexibidos à exaustão, de tanto sucesso.

A dublagem que ficou na memória

Boa parte do carinho que os fãs sentem até hoje vem da dublagem clássica feita pelo estúdio Gota Mágica, sob direção de Mário Lúcio de Freitas. As vozes de Seiya e companhia se tornaram tão icônicas que, anos depois, quando a série foi redublada para sua reestreia, boa parte do elenco original foi chamada para reprisar seus personagens.

A abertura também ficou marcada na memória afetiva de toda uma geração: a música-tema brasileira “Os Guardiões do Universo”, na voz de Sarah Regina, embalou os primeiros anos do desenho no Brasil antes de dar lugar a outras aberturas em sagas posteriores.

Os bonecos: quando o anime virou item de colecionismo

Para o público do EntreNerd, talvez a parte mais interessante dessa história seja o impacto da série no mundo dos brinquedos. A linha de action figures da franquia, chamada oficialmente de Saint Cloth Series, mas popularmente conhecida no Brasil como “Diecast”, se tornou um fenômeno de vendas. Segundo declarações de executivos do próprio Grupo Bloch (dono da Manchete) à época, o Brasil chegou a ser o terceiro maior mercado mundial de vendas dos bonecos da série.

Não é exagero dizer que Cavaleiros do Zodíaco ajudou a moldar o hábito de colecionismo de toda uma geração de brasileiros. Muito antes de termos qualquer noção do que seriam os “colecionáveis geek” como conhecemos hoje. Até hoje, é comum encontrar essas figuras de ação (originais, reedições ou os famosos clones nacionais) circulando em feiras de antiguidades e grupos de colecionadores pelo Brasil.

O legado: a porta de entrada dos animes no Brasil

O sucesso inesperado de Cavaleiros abriu caminho para uma avalanche de animes que vieram a seguir na grade da própria Manchete, como Yu Yu Hakusho, Sailor Moon e Samurai Troopers (rebatizado no Brasil de “Samurai Warriors”). No SBT, o boom dos animes japoneses também ganhou força com a chegada de Dragon Ball ainda nos anos 90.

Depois do encerramento das atividades da Manchete, em maio de 1999, Os Cavaleiros do Zodíaco continuou circulando por outras emissoras, como Cartoon Network, Band, Rede 21, PlayTV e Rede Brasil. Em 1º de setembro de 2003, exatamente nove anos após a estreia original, a série ganhou uma nova dublagem e reestreou pelo Cartoon Network, reaproximando uma nova geração de fãs da saga.

Décadas depois, o fenômeno ainda mostra fôlego: a franquia chegou até a ganhar uma adaptação live-action de Hollywood, reacendendo o interesse de fãs antigos e apresentando a história a um público totalmente novo.

Poucas séries conseguem unir nostalgia, cultura pop e colecionismo da forma como Os Cavaleiros do Zodíaco fez com quem cresceu no Brasil dos anos 90. De um desenho recusado por quase todo mundo a um fenômeno que ajudou a abrir as portas dos animes no país, a Saga do Santuário continua sendo um dos capítulos mais bonitos da nostalgia geek brasileira.

E você, lembra do seu boneco favorito da coleção ou de qual Cavaleiro de Bronze era o seu xodó? Conta pra gente nos comentários! ⭐🛡️

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