Como o Tetris Foi Criado Dentro da União Soviética e “Escapou” Para o Ocidente

jogo tetris

Poucas histórias do mundo dos games são tão dignas de um filme de espionagem quanto a trajetória do Tetris. O quebra-cabeça de blocos que caem, hoje presente em praticamente todo aparelho eletrônico do planeta, nasceu atrás da Cortina de Ferro, em plena Guerra Fria. A saga para tirá-lo da União Soviética envolveu contratos duvidosos, viagens desesperadas a Moscou e uma disputa comercial que só terminou nos tribunais.

Um programador soviético e um jogo criado por diversão

O Tetris foi criado em 1984 por Alexey Pajitnov, engenheiro de computação que trabalhava no Centro de Computação Dorodnitsyn, ligado à Academia de Ciências da União Soviética, em Moscou. Pajitnov se inspirou em um antigo quebra-cabeça de pentaminós que gostava de jogar quando criança. A partir dessa ideia, ele desenvolveu um sistema de peças geométricas formadas por quatro segmentos, batizadas de tetraminós.

O nome “Tetris” vem justamente da junção do prefixo grego “tetra”, referência às quatro partes de cada peça, com “tênis”, esporte favorito de Pajitnov. A primeira versão jogável ficou pronta em 6 de junho de 1984, rodando em um computador Electronika 60. Pouco depois, um estagiário de apenas 16 anos chamado Vadim Gerasimov ajudou a portar o jogo para computadores IBM, o que permitiu que o Tetris circulasse por outras máquinas dentro da própria União Soviética.

A corrida internacional pelos direitos do jogo

O Tetris se espalhou rapidamente entre programadores soviéticos e, eventualmente, chamou atenção de empresas ocidentais interessadas em distribuí-lo fora do bloco comunista. Porém, negociar com a URSS não era simples. Todo contrato de exportação de software precisava passar pela Elorg, agência estatal responsável por licenciar tecnologia soviética para o exterior.

Foi nesse cenário que Robert Stein, empresário britânico, viajou a Moscou para tentar fechar um acordo de distribuição. Pouco depois, a britânica Mirrorsoft entrou em contato com a Atari para desenvolver uma versão do Tetris para consoles domésticos, na época um mercado multibilionário. O problema é que vários desses contratos foram assinados às pressas, gerando sobreposições e disputas sobre quem realmente detinha os direitos do jogo em cada plataforma.

Henk Rogers e a viagem decisiva a Moscou

Em 1989, o empresário holandês Henk Rogers, baseado no Japão, comprou os direitos do Tetris junto à Atari e tentou repassá-los à Nintendo. Desconfiado da legalidade dos acordos existentes, Rogers decidiu voar até Moscou pessoalmente para negociar diretamente com a Elorg. Ele não estava sozinho nessa corrida. Stein e Kevin Maxwell, executivo da Mirrorsoft, também correram para a capital soviética na tentativa de garantir seus próprios contratos.

Em meio a esse caos, os soviéticos perceberam a dimensão da confusão que havia se espalhado pelo mundo capitalista. A Elorg decidiu então anular o contrato de Stein e, no fim das negociações, a Nintendo ficou com os direitos de portáteis e consoles. A empresa japonesa não hesitou em partir para cima dos concorrentes, incluindo uma ação judicial contra a própria Atari, disputa que a Nintendo acabou vencendo.

O maior aliado do Tetris foi o Game Boy

Essa vitória jurídica teve um impacto enorme. Ao garantir os direitos para portáteis, a Nintendo lançou o Tetris junto com o Game Boy em 1989, combinação que se tornou um verdadeiro fenômeno global. Milhões de pessoas conheceram o jogo dessa forma, consolidando o Tetris como um dos títulos mais vendidos da história dos videogames.

Ironicamente, enquanto empresas ocidentais lucravam bilhões com o sucesso do jogo, seu criador original mal era mencionado nos créditos ou reconhecido financeiramente. Alexey Pajitnov só passou a receber royalties de fato anos depois, quando fundou a The Tetris Company, em parceria com o próprio Henk Rogers, em 1996.

Uma história boa demais para não virar filme

Essa trama real de disputas contratuais, Guerra Fria e viagens arriscadas a Moscou acabou inspirando o filme “Tetris”, lançado pela Apple TV+ em 2023, estrelado por Taron Egerton no papel de Henk Rogers. Embora o roteiro tenha adicionado doses extras de drama hollywoodiano, a essência da disputa pelos direitos do jogo é verídica. Pajitnov e Rogers, hoje sócios e amigos, ainda relembram os perigos e situações inusitadas que cercaram aquela negociação histórica.

Do socialismo soviético ao capitalismo dos games

A trajetória do Tetris é um lembrete curioso de como a Guerra Fria influenciou até mesmo a indústria dos videogames. Um jogo criado por diversão em um centro de pesquisa estatal soviético se transformou, décadas depois, em um dos produtos culturais mais lucrativos e reconhecíveis do planeta. Poucas franquias carregam uma origem tão improvável quanto essa.

E você, lembra da primeira vez que jogou Tetris? Foi no Game Boy, no computador ou em algum clone genérico de fliperama? Conta pra gente nos comentários.

Fontes: Aventuras na História, ASMETRO-SI, Estado de Minas, Wikipedia (Alexey Pajitnov) — julho de 2026

Tags: Tetris, Alexey Pajitnov, União Soviética, Game Boy, curiosidades de games, Guerra Fria, nostalgia gamer, Nintendo

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