Os Maiores Flops da História dos Videogames — Quando Tudo Deu Terrivelmente Errado
A indústria dos games é um negócio de sonhos e apostas. Para cada Grand Theft Auto V que vende 200 milhões de cópias, para cada Elden Ring que redefine um gênero, existem dezenas de projetos que prometeram o céu, consumiram fortunas em desenvolvimento e chegaram ao mercado para encontrar apenas decepção, bugs e críticas devastadoras.
Os flops dos games têm uma qualidade única que os fracassos de outras indústrias não têm: são vividos coletivamente, em tempo real, por milhões de pessoas que estavam esperando, que acreditaram, que compraram na pré-venda. A decepção é proporcional à expectativa — e alguns desses casos tiveram expectativas estratosféricas.
Esta é a história dos maiores fracassos da história dos videogames. Das promessas que não foram cumpridas, dos orçamentos que evaporaram e das lições que a indústria precisou aprender da forma mais dolorosa possível. 💀
E.T. — O Extraterrestre (Atari, 1982) — O Flop que Quase Matou uma Indústria

O ponto de partida obrigatório de qualquer lista de flops nos games é o E.T. do Atari — e não apenas porque foi ruim. Foi porque suas consequências foram devastadoras para a indústria inteira.
O jogo foi desenvolvido em apenas cinco semanas — um prazo absurdo — para aproveitar o sucesso do filme de Spielberg. O resultado foi um título confuso, mal projetado e frustrante que deixava o jogador sem nenhuma pista do que fazer. A Atari havia encomendado 12 milhões de cartuchos. Vendeu cerca de 1,5 milhão. O restante foi literalmente enterrado num aterro sanitário no Novo México — um fato que pareceu lenda urbana por décadas até ser confirmado por arqueólogos em 2014.
E.T. não causou a crise dos videogames de 1983 sozinho — mas foi seu símbolo mais poderoso. O mercado americano de videogames colapsou de um faturamento de 3,2 bilhões de dólares em 1983 para 100 milhões em 1985. A recuperação só veio com a Nintendo e o NES.
Duke Nukem Forever (3D Realms/Gearbox, 2011) — 14 Anos Para a Decepção
Duke Nukem Forever foi anunciado em 1997 como a sequência do aclamado Duke Nukem 3D. O que ninguém poderia prever é que o jogo levaria 14 anos para chegar ao mercado — e que quando chegasse, já teria envelhecido antes mesmo de ser lançado.
Ao longo desses 14 anos, o jogo mudou de motor gráfico múltiplas vezes, trocou de estúdio de desenvolvimento, acumulou processos judiciais e se tornou o símbolo universal de “desenvolvimento infernal” na indústria. A expressão “Duke Nukem Forever” virou sinônimo de projeto que nunca vai sair.
Quando finalmente foi lançado em 2011, as críticas foram impiedosas. Um jogo que parecia saído de 1997 — com humor grosseiro e sem criatividade — num mundo que havia avançado décadas. O personagem que havia sido revolucionário nos anos 90 parecia apenas antiquado e sem graça em 2011. Vendas fracas, críticas péssimas e o fim definitivo da franquia.
Aliens: Colonial Marines (Gearbox, 2013) — O Trailer Que Não Era o Jogo
Aliens: Colonial Marines é um caso de estudo em falsidade publicitária. Os trailers e as demos mostradas em eventos eram impressionantes — visuais atmosféricos, IA de inimigos sofisticada, uma experiência que prometia fazer jus ao universo de Alien de forma que nenhum jogo havia conseguido.
O jogo que chegou às lojas era completamente diferente. A IA dos Xenomorfos — que nos trailers parecia assustadora e estratégica — era alucinantemente estúpida no produto final. Os gráficos eram significativamente inferiores. Os níveis eram lineares e sem tensão. A história era fraca.
A decepção foi tão grande que a Gearbox enfrentou um processo judicial coletivo por publicidade enganosa — um dos primeiros casos do tipo na indústria dos games. O processo foi finalmente resolvido em 2015, com a empresa pagando uma indenização. Uma nota de rodapé vergonhosa para um jogo que deveria ter sido a homenagem definitiva a Alien.
No Man’s Sky (Hello Games, 2016) — A Queda e a Redenção

No Man’s Sky é um caso único na história dos flops: um dos maiores fracassos de lançamento dos games modernos que se transformou, ao longo dos anos, numa das recuperações mais impressionantes que a indústria já viu.
No lançamento, em agosto de 2016, o jogo prometia uma galáxia de 18 quintilhões de planetas para explorar, multijogador onde você poderia encontrar outros jogadores pelo universo e uma variedade de experiências que parecia infinita. O que os jogadores encontraram foi um jogo repetitivo, sem o multijogador prometido e com muito menos profundidade do que os trailers sugeriam. A reação foi devastadora — e o fundador da Hello Games, Sean Murray, que havia feito promessas grandiosas em entrevistas, praticamente desapareceu das redes sociais.
O que aconteceu depois é a parte mais extraordinária. A Hello Games, em vez de abandonar o jogo, passou anos adicionando tudo que havia prometido e muito mais — gratuitamente, sem cobrar por DLCs. Multiplayer real, base building, frotas de naves, exploração subaquática, missões narrativas, realidade virtual. No Man’s Sky de 2024 é um jogo completamente diferente do que foi lançado em 2016 — e é genuinamente excelente.
Anthem (BioWare/EA, 2019) — O Sonho Que Virou Pesadelo
A BioWare tinha uma reputação impecável: Mass Effect, Dragon Age, Knights of the Old Republic. Quando anunciou Anthem — um looter-shooter de mundo aberto com exoesqueletos voadores — a expectativa era enorme. Era a BioWare. Não poderia dar errado.
Deu. Catastrophicamente.
Anthem chegou ao mercado em fevereiro de 2019 com bugs sérios, conteúdo insuficiente, missões repetitivas e uma estrutura de progressão que tornava o jogo monótono rapidamente. A narrativa — o ponto forte histórico da BioWare — foi amplamente considerada fraca e genérica. O mundo era bonito mas vazio.
Um documentário devastador publicado pelo Kotaku revelou o caos nos bastidores: anos de desenvolvimento sem uma visão clara, pressão da EA para mudar a direção repetidamente e uma cultura de estúdio que havia deteriorado ao ponto de afetar a saúde mental dos desenvolvedores. A BioWare prometeu uma reformulação completa — e então, em 2021, cancelou silenciosamente todos os planos de atualização. Anthem foi efetivamente abandonado.
Fallout 76 (Bethesda, 2018) — A Franquia Que Traiu Seus Fãs
Fallout tem uma das bases de fãs mais devotas da história dos games. Quando a Bethesda anunciou Fallout 76 — um spin-off multiplayer ambientado na Virgínia Ocidental — havia ceticismo, mas também curiosidade. Era Fallout. A Bethesda ia entregar.
Não entregou. Fallout 76 chegou ao mercado em novembro de 2018 como um dos lançamentos mais bugados da história recente. Personagens voando pelo mapa, missões quebradas, itens desaparecendo, crashes constantes. A ausência de NPCs — uma decisão de design que a Bethesda defendia mas que os jogadores odiaram — tornava o mundo imenso e vazio.
Mas o pior estava por vir. Uma edição de colecionador prometia uma sacola de lona. O que chegou foi uma sacola de nylon barata — e a Bethesda inicialmente se recusou a compensar os compradores. Depois veio o vazamento de dados dos usuários que tentaram solicitar suporte. E o Power Armor Edition que enferrujou.
Fallout 76 melhorou significativamente com o tempo — especialmente após a adição de NPCs e de uma narrativa mais substancial. Mas o dano à reputação da Bethesda foi real e duradouro.
Cyberpunk 2077 (CD Projekt Red, 2020) — A Queda de Um Pedestal

Cyberpunk 2077 é o mais ambíguo desta lista — porque o jogo em si, quando funciona, é genuinamente extraordinário. O problema foi o lançamento.
A CD Projekt Red havia construído uma reputação quase mítica com The Witcher 3. Quando Cyberpunk 2077 foi anunciado, as expectativas foram às alturas. Anos de trailers deslumbrantes, meses de hype intenso, pré-vendas recordes. E então o jogo chegou, em dezembro de 2020, com uma versão de PlayStation 4 e Xbox One tão bugada que era quase injogável. Carros voando, personagens atravessando paredes, crashes constantes.
A Sony chegou a remover o jogo da PlayStation Store — um evento sem precedentes na história dos games modernos. A CD Projekt Red emitiu pedidos de desculpas e prometeu consertos. As ações da empresa despencaram. Processos judiciais foram abertos.
A redenção veio gradualmente. O Patch 1.5 em 2022 transformou o jogo numa experiência significativamente melhor. A expansão Phantom Liberty em 2023 foi aclamada como uma das melhores da geração. E o anime Cyberpunk: Edgerunners relançou o interesse no universo de forma extraordinária. Hoje, Cyberpunk 2077 é considerado um dos melhores jogos dos últimos anos — mas o lançamento continua sendo um caso clássico de “como não fazer”.
The Day Before (Fntastic, 2023) — O Golpe Mais Descarado da História
Se E.T. foi o flop que quase matou uma indústria, The Day Before é o flop que levanta questões sobre honestidade e possível fraude.
O jogo foi anunciado como um MMO de sobrevivência pós-apocalíptico e rapidamente se tornou um dos mais wishlisted da Steam, com trailers que mostravam uma qualidade visual impressionante. A antecipação era enorme.
O lançamento em dezembro de 2023 foi uma catástrofe imediata. O jogo estava longe de ser o MMO prometido — era um título básico de sobrevivência, mal polido e com pouquíssimo conteúdo. Quatro dias após o lançamento, a Fntastic anunciou o fechamento do estúdio e encerrou o suporte ao jogo. Quatro dias.
A suspeita de que toda a campanha de marketing havia sido construída sobre promessas que o estúdio sabia que não poderia cumprir — possivelmente para arrecadar dinheiro e então fechar — transformou The Day Before não apenas num flop, mas num possível escândalo. Investigações foram abertas em diferentes países.
Final Fantasy XIV (Square Enix, 2010) — O Fracasso Que Se Tornou Triunfo
Final Fantasy XIV original, lançado em 2010, é considerado um dos piores MMORPGs já feitos. Bugs graves, sistemas desbalanceados, interface inutilizável e uma experiência geral que afastou jogadores em massa. A Square Enix sofreu um golpe devastador na reputação — e precisou tomar uma decisão radical.
Em vez de abandonar o jogo, a empresa fez algo sem precedentes: desativou completamente o servidor em 2012, narrou a destruição do mundo dentro do próprio jogo como evento final para os jogadores que permaneceram, e relançou o jogo completamente reconstruído como Final Fantasy XIV: A Realm Reborn em 2013.
A Realm Reborn é hoje um dos MMORPGs mais bem-sucedidos e amados do mundo — com milhões de assinantes ativos e uma comunidade extraordinariamente positiva. O que começou como um fracasso monumental se transformou numa história de recuperação sem igual na história dos games.
A Lição Que Todos Esses Flops Ensinam
Olhando para todos esses casos juntos, um padrão emerge com clareza: os maiores flops da história dos games geralmente não são falhas criativas — são falhas de processo. Prazos impossíveis, promessas além das capacidades, pressão para lançar antes de estar pronto e, às vezes, desonestidade deliberada com o público.
E a outra lição é igualmente clara: a recuperação é possível. No Man’s Sky e Cyberpunk 2077 mostraram que um jogo mal lançado pode se tornar extraordinário com o tempo e o comprometimento certos. Final Fantasy XIV provou que às vezes é necessário destruir tudo e reconstruir do zero.
A indústria aprende com os flops — lentamente, dolorosamente, mas aprende. E cada um desses fracassos contribuiu, à sua maneira, para os sucessos que vieram depois. 💀
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